quarta-feira, 28 de março de 2012

Eu nunca disse EU TE AMO por Jozê Peres



[ Esse texto foi escrito por uma grande amiga, a Jozê , na minha casa em uma madrugada filosófica regada a vinho. Como adoro ler o que ela escreve,  resolvi publicar].


Nunca disse " Eu te amo" 

3:50 a.m. Fim de noite na casa da amiga. Vinho, petiscos, cerveja. Mais tira-gostos. Devaneios regados a álcool, samba e muita conversa fiada. No alto dessa viagem ela diz: "não quero mais me apaixonar, quero amar".

[Minuto de reflexão]

Como assim "não quero mais me apaixonar"? 

Em primeiro lugar, essa frase nos dá a impressão de que cabe a nós a escolha da paixão ou não. Como se ela não simplesmente viesse e tirasse seu sono, sua razão e sua vontade de trabalhar. Em segundo lugar, essa frase nos dá a impressão de que cabe a nós a escolha de amar. Como se o amor não fosse um processo do qual a paixão é apenas uma etapa. Como se  o amor não fosse uma longa caminhada da qual a paixão é somente um pequeno passo.

E isso me faz pensar o que é o amor. E isso me faz lembrar que eu nunca disse "eu te amo".

À minha mãe? Sim, claro que disse. Assim como aos meus irmãos. E não carrego o amargor de não ter dito isso ao meu pai. Graças a Deus disse isso, sim, a ele, e não foi só nos últimos momentos (apesar de que não me arrependo de ter dito isso a ele na última vez em que nos vimos).

Não, nunca disse "eu te amo" a um homem. Não porque não quisesse, mas porque nunca senti.

Não, não sou insensível. Simplesmente acredito que o amor é muito mais do que sentir borboletas no estômago ou pensar 24 horas por dia no objeto do meu desejo.

O amor, pra mim, em primeiro lugar, é um sentimento bilateral.  Diferente da paixão, do meu ponto de vista, não existe amor de uma parte só da relação. Você não suspira diária e platonicamente pelo colega de trabalho e o ama, você se apaixona por ele. Mas amor, ah, isso demanda que ele te ame de volta.

Amor é convivência. E todos sabemos o que é a convivência. É conhecer todos os defeitos da pessoa e ainda assim querer continuar com ela. É morrer de raiva com aquela mania irritante e incostante do ser amado, mas aguentar com todas as suas forças, inclusive,  porque você sabe que ele também aguenta suas manias igualmente aterradoras (tipo cheirar o fio dental depois de usar - juro, não faço isso! Mas já tive notícias de quem o fizesse).

É uma necessidade inconsciente e recíproca. É passar a maior parte dos seus dias com essa pessoa e mesmo assim, naquela viagem em que você tem toda a liberdade e independência do mundo, lembrar dela às 3 horas de uma madrugada louca numa boite de Kuala Lumpur e saber que ela, se estiver acordada, onde quer que esteja, vai se lembrar também de você.

É um querer estar com ela mesmo depois da barriguinha de cerveja cultivada e dos cabelos brancos (ou ausentes) ao olhar no fundo dos olhos da pessoa amada e ver os sonhos que tinham no início, muito tempo atrás. Os sonhos que pretendiam realizar juntos, tanto os que foram realizados quanto os que ficaram pelo caminho, e acima de tudo os que ela deixou pra trás pra que os seus virassem realidade. 

É um sentimento construído. Não é algo que simplesmente se sente, e pronto. É algo que duas pessoas arquitetam ao longo do tempo, alternando carinho, paciência e compreensão, com base em experiências que começam numa ida ao cinema ou a um restaurante de que você não gosta, em um jantar meio desencontrado ou numa transa meio que sem jeito, mas que vai crescendo, e sem saber você descobre que aquela pessoa desengonçada, meio que sem querer querendo, é necesária à sua sobrevivência.

É um querer cuidar um do outro, sabendo que o outro vai cuidar de você, mas sem cobrar isso de volta por simplesmente saber que o outro também não vai  cobrar. É cuidar por amar, simples assim. 

É não conseguir imaginar como seria sua vida sem aquela pessoa, apesar de todas as adversidades e contratempos. É um não saber que caminho seguir sem olhar nos olhos da pessoa amada. É um saber inebriante e inconsequente de que sem aquele ser você próprio nem mesmo sabe quem é.

Se fosse diferente, não seria amor. E se for diferente, não quero amar.

Meu nome é Jôze. 27 anos. Capixaba. Libriana (como se isso importasse). Nunca disse "eu te amo" a um homem. Mas quando eu disser - não sei se vai ser pra sempre, não tenho tanta pretensão nem sou tão inocente assim - ah, mas uma coisa garanto: quando eu disser eu te amo, vai ser pra valer.





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